Se Sandor Ferenczi percebeu o traumático enquanto realmente existente (não o real lógico de Lacan) ele parece partir de uma ontologia mais compatível com a nossa, na medida que o representado psiquicamente tem referência no existente. O desafio passa a ser a revisão da técnica clínica, principalmente no que tange aos aspectos identificatórios analista-paciente.. De todo modo, o reconhecimento do desmentido pode fornecer um caminho ético mais compatíveis com uma Ontologia do ser social do que uma pretensa ética trágica, como a desenvolvida por Lacan. Além disso, o destaque de reconhecimento que fazemos na prática clínica cotidiana já é uma postura que vai na direção da formulação ferencziana. Talvez, uma boa teoria do fetichismo nos respalde em relação às precauções identificatória que os lacanianos advertem, sendo necessário depurar quais são os elementos concretos que causam os efeitos de agressividade e apaixonamento, por exemplo, como exemplificado por Lacan em O Mito individual do Neurótico (1954) e um estudo mais exaustivo nos levaria a uma pesquisa sobre a teoria da alienação no Lacan e suas diferenças da teoria da alienação em Marx, já que os processos de reificação estão sendo mobilizados até mesmo no seio da vanguarda lacaniana do Apola, em seu congresso de 2025, através do trabalho de Antoni Cayelles no congresso de 2025 para entender os sintomas contemporâneos.
As questões clínicas próprias da ontologia lacaniana podem ser fundamentadas a partir do Politzer: Ou seja, o drama concreto enquanto objeto de trabalho do analista, sendo esse autor um mediador importante entre a ontologia materialista de Marx e a de Lacan.
O formalismo lacaniano e as iatrogenias decorrentes deste na formação do analista
O formalismo lacaniano tem consequências teórico-práticas: As principais delas são a transmissão hermética, e tendencialmente sofística – podendo chegar a extremos diletantes – por um lado, e a dificuldade de apresentar formas concretas dos manejos clínicos, por outro. Lacan rejeitou a ideia da “boa forma” de conduta do analista através da formalização, mas seu gongorismo criou um modelo de transmissão onde somente aqueles que investigaram suas fontes e premissas o entendem. Ou seja, para aqueles analistas que não possuem acesso a formações de qualidade ou não tem tempo para uma vida dedicada aos estudos, resta a transmissão de uma “boa forma” justificada por uma transmissão que justifica tal forma em formulações que o analista tem muita dificuldade de entender. A formalização e a matematização não acabou com a “boa forma” entre os analistas lacanianos: ela só deu status de lei “a uma boa forma” massificada de ser analista lacaniano para os analistas pobres que não conseguem se dedicar integralmente aos estudos das fontes lacanianas.
Os efeitos desse problema nota-se no consultório: Diante da angústia despertada pelo caso, ou de diversos sofrimentos produzidos ou intensificados pelo trabalho de analista, o jovem analista lacaniano tende a se apegar ao aspecto formal da construção do caso clínico para lidar com seu sofrimento.
Diante de tal cenário, como construir o caso sem formalizá-lo? É possível uma teorização do caso clínico que não reduz a complexidade de um caso as posições lógicas dos entes mobilizados como sendo os estruturais para um discurso? Para respondermos essas questões precisamos primeiro localizar em que sentido a psicanálise lacaniana constitui um avanço técnico-operativo em relação à psicanálise pré-lacaniana.
O racionalismo lacaniano e o seu distanciamento da certeza sensível
O caráter racionalista do projeto lacaniano – partindo do cogito cartesiano – permitiu uma ampliação da capacidade de leitura dos casos pelos psicanalistas para além da certeza sensível – para além do empírico imediato – exigindo do analista um distanciamento de seus impulsos e afetos mais imediatos diante dos pacientes, e nisso reside a popularidade de tal corrente no campo. Anteriormente ao lacanismo os afetos suscitados pela transferência no analista eram respondidos desde a contratransferência e na supervisão dos casos sempre foi possível verificar isso. No entanto, uma postura teórico-metodológica demasiada especulativa – verificável nos famosos ensaios freudianos sendo o mais polémico deles pelas suas especulações Totem e Tabu (1913) – cujo ápice está em trabalhos como O trauma do Nascimento (1924) de Otto Rank, permitia ao psicanalista de boa-fé racionalizar condutas impulsivas originárias na contratransferência através de interpretações hermenêuticas pouco verossímeis. O próprio Freud faz isso no seu famoso Caso Dora, como tem apontado o professor Fábio Belo em sua leitura do caso. Uma honrosa exceção a esse cenário se deu entre os psicanalistas vinculados a chamada escola inglesa de psicanálise que se apoiaram metodologicamente na observação empírica, estendendo sua vocação empírica até as pesquisas de metodologia experimentais no caso de Anna Freud e Jonh Bolby. Não à toa, tal escola foi a que mais rivalizou com o lacanismo ao longo do século XX: Enquanto na ilha da Grã-Bretanha pensava-se em uma psicanálise cada vez mais empírica e experimental, no continente havia a necessidade histórica de estabelecer limites racionais para as hermenêuticas genitalistas e especulações livres. Tais limites vieram do uso que Lacan fez da linguística para situar novamente a psicanálise enquanto sistema teórico racional, alguns diriam: ciência.
O estatuto do relato e sua condição ontológica
Ao pensar o relato do paciente a partir da linguística, Lacan permitiu um avanço técnico na clínica psicanalítica onde o relato não é mais a parte manifesta de um conteúdo latente – conteúdo este que quase nunca se revelaria ao todo, fazendo com que o analista tivesse que construir sua hermenêutica especulativa – mas sim manifestação de um discurso que precisa ser lido a partir de sua estruturação lógica interna. Isso permitiu que os analistas simplesmente pudessem localizar com muita mais facilidade a significação do conteúdo relatado e dos signos (em sua dimensão significante privilegiada por Lacan) que rearticulados em uma outra relação significante, produzem outra significação, deslocando assim o sentido de cada experiência relatada. Tal formulação constituiu um avanço porque a partir dela não importa tanto o que o paciente quis dizer quando articulou uma palavra com a outra, reduzindo bastante a margem para interpretações selvagens, sejam elas causadas por imperícia ou imprudência. No entanto, tal avanço teria o seu preço: Munido de referências estruturalistas e pós-estruturalistas, o relato perdeu seu referencial no mundo existente, tendo a teoria que se apoiar na sua coesão e coerência internas, não mais externas, daí a necessidade de matematização teórica. As consequências práticas apontadas no início do texto são derivadas de um problema ontológico no sentido lukacsiano do termo. Ou seja: Para superar um realismo ingênuo da psicanálise pós-freudiana que precisava identificar o relato do paciente a hipótese hermenêutica criada pelo psicanalista (Com exceção, é claro, das já referenciadas correntes que recorreram a metodologias experimentais ou a observação em ambientes mais controlados que o consultório) o lacanismo precisou se fiar em modelos de alta coerência interna, mas que prescinde de qualquer coerência com a realidade exterior. Em outras palavras, por não ser possível qualificar o realismo ingênuo em uma forma mais complexa, abandona-se qualquer consideração ontológica de cunho realista, produzindo, portanto, os efeitos sociais e políticos já supracitados no início do texto.
Ferenczi, o trauma real e o realismo crítico
Retomar o paradigma ferencziano do trauma realmente existente enquanto base ontológica para pensar qualquer trabalho clínico é uma postura sobretudo política: Ou passamos a afirmar que as violências sociais são concretamente existentes, ou não conseguiremos enquanto vanguarda política combater posturas negacionista, relativistas e anti-científicas. A crítica ao realismo ingênuo não pode ser a crítica a todo e qualquer realismo, porque se assim for estaremos reproduzindo em nossos dispositivos clínicos o relativismo e o niilismo típicos dos ideais de nossa época. Se o argumento ético-político pode parecer insuficiente, basta dizer que sem a premissa de que a realidade objetiva existe, pode ser conhecida e que é maior e mais complexa do que qualquer ente que a compõe, o real lógico de Lacan, ou mesmo operações como a castração seriam insustentáveis de serem pensadas em um sistema que pretende ser puramente lógico, como o do psicanalista francês.
Admitir uma postura realista não é se fiar no empírico aparente, se partimos de um realismo crítico onde o objeto cognoscível só pode ser conhecido através da reconstrução das categorias que o determinam, que mediam a sua existência. Ou seja, uma postura realista não implica em um correlato clínico onde o analista identifica a realidade em sua própria leitura particular de mundo, como se apregoa em espaços de formação lacanianos. Uma postura realista permite dar dignidade à relatos de opressões sistêmicas, objetivas, concretas, conservando as diferenciações existentes entre o nível universal, geral, do ser social e das suas determinações particulares que em conjunto singularizam um indivíduo. Na inter-relação entre os elementos desses três níveis – geral, particular, singular – surgem as contradições entre os diferentes processos e relações dos objetos existentes. Contradições essas que por sua vez, ao serem apreendidas pelo intelecto humano, representadas através da linguagem, e explicitadas pela associação livre, se autonomizam do objeto concreto na forma de relato. É essa autonomia relativa alcançada pela linguagem humana que produz a aparência de não haver referencial externo ao significante: a representação linguística, ao se tornar relato está em relação imediata com os demais representantes da cadeia, mas a significação geral do relato só pode ser produzida enquanto resultado de uma vivência do ser humano com o mundo existente.
Uma conclusão que aponte para um futuro Por motivos políticos, mais que epistêmicos, é pouco provável que aqueles que se identificam com o antirrealismo lacaniano modifiquem seu paradigma, pois a teoria viria apenas a substancializar uma identificação com uma postura antirrealista já anterior à adesão teórica de seus membros. No entanto, analistas da classe trabalhadora que tem um compromisso ético-político de superação da ordem societal capitalista, mais do que um compromisso com uma ética trágica, podem se ver contemplados em seus valores pessoais diante de uma mudança de paradigma. Há que, portanto, qualificar, ampliar e continuar a teoria do trauma real ferencziana, fazendo descer das nuvens o núcleo racional das formulações lógicas lacanianas. A aposta está em uma libertação da prática clínica que permite o paciente acessar um saber até então não consciente (um saber não sabido) de fórmulas abstratas. Assim, poderemos restituir o estatuto concreto (síntese de múltiplas determinações) do saber produzido em análise enquanto saber que diz da realidade contraditória do ser qu