Nosso posicionamento psíquico está intrinsecamente ligado à maneira como nos
entendemos no mundo, sendo as nossas relações sociais um fator determinante nesse processo.
Michel Schneider, em Neurose e Classes Sociais (1977), argumenta que “se a família burguesa
é uma fábrica de neuroses, então isso não ocorre primordialmente por causa de qualquer
moralidade sexual repressiva nela existente (…), mas sim porque ela constitui uma íntima
relação de poder, (…), ou seja, a relação de classe, é reproduzida” (SCHNEIDER, 1977, p.
123).
Nos textos “Declínio do Complexo de Édipo” e “Algumas Consequências Psíquicas da
Distinção Anatômica dos Sexos”, Freud parece oscilar entre o determinismo do corpo e o
papel do social na formação do psiquismo. Ele afirma que “o complexo de Édipo precisa cair,
porque chegou a hora de sua dissolução [Auflösung], assim como caem os dentes de leite
quando os permanentes começam a empurrá-los” (FREUD, 2023, p. 248-249). Ao mesmo
tempo, sugere que “há interesse em acompanhar como esse programa inato é executado e de
que maneira danos acidentais exploram a predisposição” (FREUD, 2023, p. 248-249),
apontando para uma interação entre o biológico e o contingente social.
Embora o texto de Shakespeare preceda a formação da família burguesa propriamente
dita, é possível explorar as dinâmicas sociais que ele retrata, já que Shakespeare foi um grande
“escutador” de sua época. Nosso objetivo é questionar se o complexo de Édipo, tal como
proposto por Freud, está menos relacionado à biologia dos corpos — ainda que estes sirvam de
suporte — e mais vinculado à ordenação social.
No Renascimento, especialmente entre a nobreza, os casamentos serviam como uma
estratégia para unir fortunas ou fortalecer territórios. Em Romeu e Julieta, a trama se desenrola
em poucos dias, durante os quais o casal de adolescentes se conhece, se apaixona, se casa, se
separa e, tragicamente, se mata. O que nos interessa é compreender as dinâmicas sociais que
Shakespeare parece captar em relação às posições sociais de sua época, especialmente as
ligadas às relações de poder e à generificação.
Antes de conhecermos Julieta, ela nos é apresentada por seu pai, que está negociando
seu casamento com um próspero nobre chamado Páris. Embora interessado no acordo, o pai
demonstra hesitação, pois sua filha ainda não completou 14 anos, e ele pede ao amigo que
aguarde mais um pouco, argumentando que a menina é muito jovem para o casamento.
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“CAPULETO– Não tenho resposta diferente; só posso repetir o mesmo que te disse da
outra vez: minha filha ainda é uma principiante neste mundo. Ainda nem passou pela mudança
de completar os quatorze anos de idade. Deixemos que outros dois verões floresçam e
feneçam antes de pensarmos que ela poderia estar madura para se casar.” (Shakespeare, 1998
p. 15)
Freud argumenta, em “Declínio do Complexo de Édipo”, que sua dissolução ocorre
devido a “dolorosas decepções” (FREUD, 2023, p. 247). Julieta nos é apresentada por seu pai
como a “queridinha do pai”, mas, como Freud alerta, “a menininha, que quer se considerar a
amada predileta do pai, um dia terá de sofrer um severo castigo da parte dele e se ver lançada
para fora do paraíso” (FREUD, 2023, p. 247).
Freud (2023, p. 263) argumenta que meninos e meninas têm a mãe como seu primeiro
objeto de amor. No entanto, ele se pergunta: “Como ocorre, então, que a menina a abandone e,
em seu lugar, tome o pai como objeto?” Inicialmente, a menina não faz essa transição. Antes,
ela percebe que não possui o que o menino tem. Freud explica: “Ela percebe o pênis
notadamente visível (…) de um irmão ou de um coleguinha, identifica-o imediatamente como
o correspondente superior de seu próprio órgão pequeno e escondido e, a partir daí, cai vítima
da inveja do pênis. (…). Num instante, ela está preparada para o seu julgamento e sua decisão.
Ela o viu, sabe que não o tem e quer tê-lo” (Freud, 2023, p. 264). Assim, para a menina, a
percepção da castração antecede sua entrada no Édipo.
Freud (2023) prossegue, afirmando que a menina, narcisicamente ferida, desenvolve
um sentimento de inferioridade, do qual surge a inveja do pênis. No entanto, existem outras
leituras possíveis e, talvez, mais interessantes. Para Schneider, os primeiros sentimentos
dirigidos à mãe já “trazem a marca de relações resultantes de um mundo burguês de pressões”.
Ele argumenta que, em uma sociedade de mercadorias, as pulsões também se orientam como
mercadorias, assumindo “a forma objetificada de mercadorias”, isto é, formas de possessão,
alienação e “competição” (Schneider, 1977, p. 118). Schneider propõe que a psicanálise
deveria investigar “como e por quais mecanismos a ideologia da ‘propriedade privada’ está
ancorada na estrutura instintiva da criança”(Schneider, 1977, p. 120). Para ele, a agressividade
relacionada à fase anal está ligada à ideia de posse, inculcada desde cedo pelo “medo da
castração”, ou seja, o medo de perder o que se possui.
Na cena seguinte, encontramos Julieta pela primeira vez na peça. Ela é acompanhada
por duas figuras maternas: a ama e sua mãe biológica. A ama, de origem mais simples. Já a
mãe
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de Julieta, uma nobre. Um detalhe que nos surpreende imediatamente é o tom infantilizado
com o qual a ama se refere a Julieta, chamando-a de “ovelhinha.
“LADY AMA CAPULETO – Ama, onde está minha filha? Chama-a para mim.
AMA– (…) Qual o quê, essa ovelhinha! Qual o quê, essa menina pássaro. – Deus que
me perdoe, onde está essa moça? – Ora, Julieta!
Desde o início da cena, a mãe de Julieta demonstra um claro desconforto em relação à
conversa que precisa ter com sua filha. Isso fica evidente quando, após pedir que a ama se
retire, ela imediatamente a chama de volta, pedindo que permaneça.
“LADY CAP.– Ama, deixa-nos a sós um instante. Precisamos ter uma conversa
reservada, só nós duas. – Ama, volta; dei me conta agora:” (Shakespeare, 1998 pág. 18)
O tema da conversa é o casamento. Julieta precisa se preparar para deixar de ser a
criança da casa, a “ovelhinha” da família. O desconforto da mãe transparece em suas palavras,
evocando algo do que Freud chamaria de “infamiliar” — uma sensação de estranheza em algo
familiar, talvez porque essa cena seja, de certa forma, conhecida e recalcada. A mãe, ao se
identificar com Julieta, revela essa tensão em sua fala. Podemos imaginar que a mãe foi um dia
a Julieta da cena.
“LADY CAP– Bem, pois começa a pensar em casamento (…)Pelas minhas contas, eu
já era tua mãe bem antes dessa idade em que tu agora continuas donzela.” (Shakespeare, 1998
pág. 19)
Essa fala revela uma pressão social sobre Julieta para cumprir seu papel na reprodução
familiar e social. Freud afirma que, após perceber a castração, “a menina abandona o desejo do
pênis para colocar em seu lugar o desejo de uma criança e, com essa intenção, toma o pai
como objeto de amor” (Freud, 2023, p. 271).
Se nos submetemos à linguagem, também nos submetemos às trocas simbólicas, que
refletem as dinâmicas de produção e reprodução social, mantendo e perpetuando as relações de
poder e classe. A cena do diálogo entre Julieta e sua mãe carrega elementos de repetição.
Enquanto as transformações biológicas, como a perda de dentes ou as mudanças da puberdade,
pertencem à ordem natural, os rituais sociais e as formas como cada sociedade dá sentido a
esses momentos pertencem a uma outra dimensão. Como Schneider aponta, “a família
desenvolve na criança, desde cedo, a ideia de que tal estratificação e divisão da sociedade em
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privilegiados e desprivilegiados, naqueles que doam e naqueles que servem, nos que têm valor
e nos que têm menos valor, é muito natural e inevitável” (Schneider, 1977, p. 123).
Freud afirma que, inicialmente, o menino não teme a castração; é somente ao perceber
a castração na menina que ele se torna consciente de sua própria vulnerabilidade. Na menina
acontece o oposto, Julieta já compreende que, assim como sua mãe, ela ocupa uma posição na
hierarquia social. Sua intenção é ser a boa filha, cumprindo as expectativas familiares e sociais
impostas a ela através do futuro casamento.
“JULIETA – “I’ll look to like if looking liking move.”* Vou olhar para gostar se
olhando eu mover o gostar” (versão livre feita por mim)
Julieta, de maneira astuta, utiliza um jogo de palavras para “gozar” de sua mãe,
demonstrando que ainda não foi expulsa do paraíso.
Algumas cenas à frente, após o casamento com Julieta, Romeu é exilado de Verona por
matar Teobaldo Capuleto, e a sorte do jovem casal começa a mudar. O pai de Julieta, tendo
perdido seu sobrinho homem e contando apenas com Julieta para garantir a continuidade de
sua linhagem, decide apressar o casamento com Páris. Quando anuncia a novidade à filha,
Lady Capuleto se surpreende com a reação de Julieta, que se recusa a casar. É então que o pai
entra em cena para restabelecer a “ordem nas relações”.
“CAPULETO– Enforca-te, vagabunda! Rapariga, és um tipinho desobediente! Digo-te
o seguinte: estejas na igreja na quinta-feira, ou então nunca mais olhes na minha cara. Não fala
nada, não retruca, não me responde. Sinto uma comichão nos dedos. – Mulher, pensávamos
que éramos pouco abençoados por Deus ter nos dado apenas essa filha única. Mas agora vejo
que essa uma é uma demais, e que fomos amaldiçoados ao concebê-la. Põe para fora daqui
essa rameira.” (Shakespeare, 1998 pág. 72)
Julieta nesse momento percebe sua posição na dinâmica do social. A materialidade dos
corpos dará suporte imaginário para as dinâmicas simbólicas. Ela, de certo não se identifica
com toda essa potência do pai, mas com a mãe. “A ordem familial burguesa é uma hierarquia
bem planejada, uma cópia reduzida da ordem social do estado burguês. A cabeça fica o pai; ele
ganha. Logo abaixo está a mãe e sob ambos, as crianças. Esta gradação é acentuada pela
diferença entre os sexos, mãe e filhas tem menos direitos do que pais e filhos. (Schneider,
1977, p. 123). Julieta tenta uma vez mais pedir a mãe que lhe dê o paraíso de volta.
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“JULIETA – Será possível que não existe piedade nas nuvens,(…)? Ah, minha doce
mãe, não me mande embora! Adie esse casamento por um mês, uma semana!
LADY CAP– Nem me dirija a palavra, pois não falarei contigo. Faze o que te der
vontade, pois acho que és um caso perdido.” (Shakespeare, 1998 pág. 73)
Num último apelo de restauração, Julieta recorre à sua querida ama, perguntando o que
deveria fazer. A resposta da ama não deixa dúvidas sobre o lugar de Julieta: como portadora de
vagina e útero, ela está inserida numa sociedade patriarcal e já moldada pelos valores
mercantilistas. “Não é difícil perceber como o trágico retorna no político, assim como o
político retorna no sexual.” (Freud, 2023, p. 244).
“AMA– Tua fé, ei-la aqui: Romeu está banido, e eu aposto o mundo como ele não se
atreve a voltar para reclamar-te como esposa. Se o fizer, será forçosamente às escondidas.
Então, já que a situação é essa que se nos apresenta, penso que o melhor a fazer é casares com
o conde.”
Em Romeu e Julieta, Shakespeare nos oferece uma rica exploração das dinâmicas
sociais de seu tempo. Ao investigar a construção da subjetividade feminina através das lentes
freudianas e marxistas, vemos como Julieta, inicialmente protegida pelo status de “queridinha”
do pai, é gradualmente confrontada com as imposições de uma ordem social que mercantiliza
o corpo feminino.
Tentamos criar uma trajetória edípica para Julieta, mas a nosso modo, explorando o
papel das dinâmicas de produção e reprodução social na formação da subjetividade. Nossa
análise enfatiza como essas forças sociais condicionam a psique, sendo algumas vezes
interpretadas por Freud como naturais, biológicas ou anatômicas.
Assim, na impossibilidade de viver sob essas condições, Julieta escolhe a única forma
de liberdade que lhe resta — a morte. O sofrimento pode ser inerente ao ser humano, mas o
adoecimento psíquico parece estar ligado as nossas formas de relacionar uns como os outros e
com os recursos disponíveis.
Bibliografia
SHAKESPEARE, William. Romeu e Julieta. Tradução de Beatriz Viégas-Faria.
Porto Alegre: L&PM Pocket, 1998.
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SCHNEIDER, Michael. Neurose e classes sociais: uma síntese freudiano-marxista.
Tradução da versão americana. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.
FREUD, Sigmund. Amor, sexualidade e feminilidade. Obras incompletas. 1. ed. 5.
reimpressão. Belo Horizonte: Autêntica, 2023.